10 Abr 2010
Diante de 30 linhas em branco e da leitura das orientações sobre o tema da dissertação, o can-
didato vive um drama. Precisa surpreender, apresentar argumentos consistentes, mostrar perso-
nalidade textual, fazer seu texto se destacar em meio a milhares. Mas nem sempre o vestibulando,
mesmo o bem preparado, sabe o quanto pode ser inventivo, autoral e opinativo e o quanto está
engessado aos limites do que esperam dele. Qual o perímetro que o autor tem à disposição para
trabalhar a opinião pessoal, o estilo e o tema?
Não se exige uma "resposta correta" numa redação, mas uma hipótese sustentável, mais pro-
vável do que outras concorrentes. O que se testa é a iniciativa, a prontidão de raciocínio, a capaci-
dade de usar a razão para dar respostas a situações novas.
Mais do a simples posse de conhecimento, a redação procura avaliar se o candidato está envol-
vida com os problemas do mundo em que vive, se tem sensibilidade social, preocupação ética, há-
bito de reflexão, capacidade de usar os conhecimentos adquiridos em favor da coletividade, se
sabe usar a linguagem para fazer-se entender e para ouvir as razões do outro.
Não se pede nenhum tratado literário, mas um texto com começo, meio e fim, que trate do que se pediu, tenha coerência e consistência.
As bancas não pedem que o candidato solucione os problemas do mundo, mas que apenas os
discuta, agregando ideias à discussão, sem necessidade de solucionar o que não tem resposta.
Vejamos aqui, os 10 passos para dar começo, meio e fim a sua redação:
1.Entenda primeiro o que é argumentar:
Argumentar é apresentar evidências que confirmem a posição assumida, expor os detalhes que justifiquem a tese, para convencer o leitor de que a defesa que se faz é a melhor possível.
O objetivo é convencer, mas não a qualquer preço. Use argumentos sustentáveis e éticos.
Defenda na sua redação a opinião para a qual você tenha argumentos mais poderosos, para
articular com competência.
2.Como imaginar argumentos:
Um primeiro esforço de pensar argumentos pode ser o de recorrer a procedimentos seculares da retórica. Um deles é o de pensar no modo como raciocina alguém de quem você discorda. O que ele diria sobre o assunto? Enumere os argumentos em oposição a esse rival imaginário.
Outra forma de criar argumentos é por meio de paradoxos (doxa é como os gregos nomeavam a opinião comum). Faz paradoxos retóricos aquele que, mesmo não sabendo o que vai criar,sabe
o que procura - afastar-se do senso comum, o admirável da ideia surpreendente. Pense na ideia
que vai contra a corrente e veja se há pertinência com o assunto proposto na prova.
3.O que faz uma redação ser bem escrita:
Grande parte das pessoas tem a impressão de que uma boa redação se define pela correção
da linguagem. De fato, escrever com correção, num texto dissertativo, é importante, mas não sufi-
ciente. Para comprovar isso basta confrontar três enunciados igualmente corretos, com o mesmo
sentido, e perceber que úm é melhor do que o outro.
a) "Todo mundo já viu pessoas que, na hora de defendê-los, não têm bons argumentos e aí
mais prejudicam do que ajudam. Exemplo disso são os ecologistas."
b) "Há pessoas comprometidas com causas justas, mas, por não saberem defendê-las, causam
mais prejuízo que benefício, É o que ocorre com a Ecologia."
c) "Nada pior para uma boa causa do que maus defensores: é o que acontece com a ecologia."
Fica evidente que o terceiro enunciado é muito mais bem redigido do que os anteriores. O pri-
meiro é o pior deles; o segundo, menos ruim, e o terceiro é ótimo, transcrito aqui, com pequena alteração, de artigo do jornalista Mauro Santayanna, no Jornal da Tarde.
Os três são corretos gramaticalmente, falam do mesmo assunto, mas o terceiro supera os ou-
tros em precisão, concisão, clareza e simplicidade. Boa redação é a que cumpre a finalidade para a qual foi escrita. Com base nesse princípio, é mais funcional trocar o conceito de "correção" pelo de "direcionalidade". Isto é, bom escritos não é o que escreve correto apenas, mas o que sabe dire-
cionar os recursos do seu texto para atingir o resultado programado.
4.Tenha foco na estrutura do texto:
Seja para o texto com opinião ou para o narrativo, a falta de unidade na abordagem é sempre um defeito. Tenha sempre em mente a "espinha dorsal" do texto.
É preciso organizar o caminho a seguir após definir os argumentos que se vai usar. Pode-se fazer de muitos modos:
*Fazer anotações soltas, independentes;
*Fazer lista de palavras-chave;
*Anotar tudo o que vem à mente, desordenadamente, para depois cortar e ordenar;
*Resumir ideias para depois partir para o detalhe, o exemplo, a ideia secundária.
*Criar um primeiro parágrafo para desbloquear e depois desenvolver as ideias ali expostas;
*Escrever a ideia central e as secundárias em frases isoladas para aí interligá-las.
*Criar uma espécie de sumário ou esquema geral do texto.
*Organizar na mente os blocos do texto e estruturá-lo o quanto necessário.
5.A importância de um plano concreto:
Para não se perder no meio do caminho, melhor rascunhar um plano para abordar o assunto
*Formule uma questão sobre o assunto em torno do qual seu texto vai girar.
*Quais temas serão abordados do início ao fim do proceso, logo após a leitura da proposta?
*Coloque os assuntos um abaixo do outro, assim dá pra mudar algum tema de lugar e ter a ideia geral da redação mais clara na cabeça,
*Faça um elenco de argumentos, causas e consequências.
*Se for possível, elabore propostas de intervenção. Ou seja: soluções para o problema em
questão.
*Construa o texto a partir dessas ideias, sem esquecer da norma culta, da coesão e da coerência.
6.Cuidados de Estilo:
COESÃO: Todo texto se organiza em torno de um elemento de referência. A partir dele todo o
resto se posiciona. É preciso cuidar para que uma ideia leve à proxima, sem sobressaltos. O que
se escreve num parágrafo deve ter relação com o que se disse no anterior e o que se dirá em se-
guida. Produzimos as partes pensando no todo.
CONCISÃO: Nada de parágrafos intermináveis, com descrições alongadas e pouco objetivas. Mas é preciso ter cuidado com o estilo telegráfico, que exige habilidade do redator, pois nem sem-
pre garante a suficiente clareza numa dissertação.
PRECISÃO: Cuidado com apontamentos de tempos imprecisos como: antigamente, outrora, certa vez e assim por diante; eles nada dizem e atuam negativamente no texto.
REDUNDÂNCIA: Evite repetir conectores, sobretudo os "quês" para introduzir explicações ou
restrições a termos já expostos. Não repita palavras no parágrafo. A troca de nomes por outros ajuda, mas deve haver relações de sentido entre os sinônimos.
EVITE O LUGAR-COMUM: Clichês denunciam falta de reflexão por parte do estudante. Ser ori-ginal significa fugir das frases feitas, das fórmulas prontas.
7.Como criar a introdução:
O parágrafo introdutório pode ter múltiplas possibilidades. Simone Motta, professora de reda-
ção do curso Etapa, aponta três: intertexto, citação e resumo.
INTERTEXTO: A pretexto de estabelecer um ponto de partida para a elaboração de argumentos,
o intertexto pressupõe a reprodução de algum texto-base para com ele dialogar.
CITAÇÃO: Estabelecer esse ponto de partida por meio de uma citação.
- Nesse caso, aconselha-se a contextualização da citação e, de preferência, que não seja pa-
rafraseada da antologia que é oferecida pela banca examinadora - explica.
RESUMO: Fazer um resumo das ideias que serão defendidas no desenvolvimento da redação.
Independentemente de qual seja sua escolha, todos os processos citados deverão ser cuidadosa-
mente articulados, sempre respeitando a adequação ao tema e à proposta.
Primeiros parágrafos construídos com expressões do tipo "eu penso", "eu acho" ou "eu acredi-
to" são incerções subjetivas que em nada colaboram para a estruturação de texto dissertativo
antenado à realidade.
- O aluno entra para o debate olhando para o próprio umbigo. É uma abordagem cega para a realidade e surda para os outros. A inserção objetiva, ou o contrário, traz uma abordagem com dados estatísticos e outras informações que colaborem para uma análise mais concreta - critica
Wella Borges Costa,professor de redação do curso Positivo.
Wella indica a introdução como outra possibilidade de começar a discussão. Trata-se daquele primeiro parágrafo que contextualiza a ideia da redação antes de lançá-la logo de cara.
Esxpressões cristalizadas ou muito genéricas, como "O sol nasceu para todos" ou "A aviação
aérea é um problema", engessam a argumentação. Expressões que são marcadores da lingua-
gem oral devem ser excluídas: "bom", "bem" ou mesmo "veja bem".
8.Desenvolvimento do texto:
Se você já passou do parágrafo introdutório, agora sua missão será trabalhar com a clareza e a coesão.
A professora Eliete Bindi, do Intergraus, lembra das duas possibilidades de abordagem de te-
ma: pelo método indutivo ou o dedutivo.
No primeiro, o vestibulando pode partir da observação de fatos específicos para depois abrir a
discussão para o tema central. Ou seja, ele parte do efeita para a causa.
Pelo método dedutivo - preconizado por Aristóteles -, acontece o contrário: parte-se do geral para o específico. Aí, juntam-se as hipóteses para chegas à conclusão. Para isso, o vestibulando se baseará nos silogismos, recurso que procura encontrar, demonstrar uma verdade por meio da razão.
9.O encerramento da redação:
A conclusão de uma redação deve, de preferência, retomar o pretexto inicial da redação.
Assim, fica claro que sua relação de argumentos está chegando ao fim. Além disso, esse formato atesta que aquele pretexto usado não foi em vão. Também é interessante que esse pará-grafo reúna de forma concisa os principais pontos do desenvolvimento do texto.
Nade de argumentos novos, senão dá a entender que a redação prosseguirá.
Ainda com relação à forma, o candidato precisa escolher se sua conclusão apresentará um solu-
ção para a problemática ou se fará uma previsão, com alerta de como o tema da redação se des-
senvolverá no futuro.
A conclusão é a última impressão deixada pelo redator, portanto, deve ser lida e relida para
que o encerramento encante o leitos.
Nesse sentido, jstificar o título dado à redação é também um dos aspectos que devem ser ressaltados na conclusão. Nada de reproduzir no título o tema da redação. Senão, todos seriam
iguais e sem identidade.
10.A revisão antes de entregar a prova:
Antes de passar o rascunho a limpo, tome certos cuidados:
*Avalie se seu plano de voo original foi posto em prática;
*Confira se o texto foi ponto por ponto;
*Verifique se as informações se antecipam a possíveis indagações do leitor;
*Corte informações e trechos irrelevantes, se for o caso. Veja se os trechos não deveriam ser mais bem distribuídos ou se valeria a pena usá-los noutro pobnto do texto;
*Você induz o leitor a tomar alguma posição? Não está forçado?
*Quais os argumentos contrários aos seus? Você os ignora, simplesmente (o que é o mesmo de não ter resposta para eles)?
terça-feira, 4 de maio de 2010
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