Clareza é a qualidade de uma mansagem que não deixa dúvidas razoáveis sobre seu sentido. Uma frase como "O pai o filho adora" nos lança uma sombra interpretativa, difícil de dissolver sem explicação adicional(o filho adora o pai ou o cantrário?). A falta de clareza entrava a Justiça, alonga reuniões, rouba tempo, compromete concursos, faz contratos distorcer direitos, beneficia quem não deve, prejudica quem não merece.
Uma frase perde clareza por muitos fatores, da má ordenação das ideias à pontuação inadequada. Ser claro demanda esforço. E seguir alguns conselhos, que não são tudo. A linguística textual mostrou que os sentidos se formam no conjunto de coerência e coesão, nos significados configurados na memória.
Há clareza a ser cultivada antes até do primeiro esboço, assim como há cuidados na escrita. "Clareza prêvia" é saber que, na prática, um leitor também "lê" com a memória. Ao fim da leitura, é improvável que tenhamos um texto inteiro na mente, palavra por palavras. Tendemos a fazer pausas, para que nossa memária de curto prazo forme um resumo do lido até ali. É com essa síntese mental que continuamos a leitura.
Com excesso de incisos, de elementos intercalados, o leitor terá dificuldade de saber em que momento fará a pausa necessária a seu resumo. Daí o problema com frases longas, muitos apostos e informações acumuladas, sobreposição de protagonistas e de números.
1.Compartilhar:
É preciso atenção a tudo o que atrapalhe a síntese mental. Alguns desses obstáculos são semânticos: palavras raras, gírias, jargões e formulações desconhecidas ou acessíveis com dificuldade. Outros são entraves sintáticos.:
Apostos que desarticulam a informação:
Uma frágil progressão de tópicos;
Acúmulo de elementos, ideias e conclusões na mesma frase;
Anacolutos (começar falando uma coisa, encerrar com outra: "O advogado que não escreve o que diz, não é difícil prever situações de conflito no tribunal");
Hipérbatos (interrupção de dois termos pela intromissão de um terceiro: "A guenta a escola pública da privada uma concorrência desleal" (em vez de : "A escola pública aguenta da privada uma concorrência desleal").
Outra preocupação prévia é a busca pela informação compartilhada pelo leitor. Quem nos lê ou escuta não tem obrigação de intuir o que sabemos e pensamos.
É preciso, por exemplo, ordenas as ideias e os termos da oração (sujeito, predicado, complementos), ter cuidado na escolha de palavras e usá-las em construções sintáticas o mais simples. Um texto bem escrito, por princípio, não provoca perguntas de preenchimento. Se é preciso retomar uma frase para entendê-la, algum problema há.
Pensar o todo é condição de clareza. Um texto se organiza em torno de um elemento de referência, que lhe dá coesão. A partir dele, todo o resto se posiciona. Uma ideia deve levar à proxima, sem sobressaltos. Um parágrafo, relaciona-se ao anterior e ao seguinte.
2.Clareza coerente:
Não basta criar uma série de emissões linguìsticas para obter um escrito claro. O contexto completa e induz o sentido de uma sentença com variável aberta. "Ainda tenho muito a fazer" pode significar: "Conversamos depois". A comunicação cotidiana nem sempre garante a interpretação direta, sem exigir outros sentidos que não o expresso no enunciado. Se falta clareza a "Renam Calheiros depôs sobre corrupção na Senado" (depôs sobre quem? O Senado? A si mesmo?), o conhecimento do contexto (saber que Renam foi processado) torna mais evidente o caráter truncado do período.
A leitura atenta detecta elementos que faltam ser abordados e se a abordagem foi adequada à situação comunicativa. Para o texto virar uma "unidade inegável de sentido", um tecido em que as partes remetem umas às outras, deve haver relação entre o tema e as "sequências restantes que predicam sobre ele", diz Guardiola. As peças linguísticas devem manter referência ao tema, sem contradições ou saltos sem sentido, respeitando uma progressão lógica, "nem crescendo".
O desafio é imaginar como se será lido: pensar em seu interlocutor e adequar a linguagem a ele. Claro é o texto entendido da maneira mais imediata. Mas o que é claro para uma pessoa nem sempre o é para outra. O enunciatário(leitor, espectador) é tanto autor da mensagem quanto o enunciador(redator, falante). Se o sujeito quer ser compreendido, precisa reler o próprio discurso imaginando como será recebido. É preciso fingir ser seu leitor, para buscar as questões que o rascunho deixou de fora. O leitor ou ouvinte não deve passar pelas dificuldades que você passou ao ler o próprio original.
3.Ambiguidade:
Clareza também depende do gênero. Ambiguidade num texto não literário é defeito grave. Numa poesia, é charme. Mas até quando há fim utilitário um texto pode ser pouco claro, de próposito. Um gerente pode, de caso pensado, não ser claro sobre pontos que o incomodam no desempenho de um empregado, só para evitar o confronto. Uma exposição que leva a mais de uma interpretação sobre certas metas de uma empresa pode traduzir, no fundo, o empenho de um chefe em engajar sua equipe.
A falta de clareza vira falácia argumentativa quando uma definição é tão complicada quanto o termo definido. Numa frase direto como "Catalisar é provocar um processo enzimático", a definição de "catalisar" não está explicada por "processo enzimático". Sentenças assim, esparramadas em contratos, apólices e decisões judiciais, minam direitos.
Quando a pessoa não precisa ser clara, ou não quer, e em textos que descartam a clareza como valor, o interlocutor é o fiel da balança. Um leitor interessado pode suportar um texto difícil, ávido por uma informação. Mas nada desculpa textos difíceis por mero "defeito de escrita". Grande parte dos textos difíceis é só mal escrita. Quando os interlocutores compartilham o universo de referência, pode-se ser econômico na comunicação; quando não, deve-se traduzir, explicar.
Um texto truncado pode ser, no fundo, sinal de falta de sinceridade. Escrever e falar com clareza é expor-se à avaliação alheia. Há quem escreva truncado como se usasse um escudo que, protetor, também o camufla. Nesses casos, o problema é antes de divã, ou de caráter, do que de redação. A maioria, no entanto, patina por falta de familiaridade com o idioma. Aí não há jeito: é preciso pôr-se no papel do leitor até que o sentido surja cristalino. Mais revisão, maior a fluência. E isso dá um trabalho danado.(Compilação feita da Revista Língua, por Luís Costa P. Júnior)
terça-feira, 4 de maio de 2010
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